Aperte o play para lembrar

Eu moro em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. E se você não esteve alheio ao noticiário nos últimos anos deve saber que minha cidade passou por uma grande tragédia recentemente.

Em 27 de janeiro de 2013, um artefato pirotécnico usado durante um show na boate Kiss iniciou um incêndio na casa noturna. Queimando, o teto do local, revestido de espuma tóxica, sufocou 242 pessoas – a maioria, jovens – que tiveram dificuldade de sair do prédio às escuras e cheio de obstáculos à passagem.

Sofremos muito e seguimos sofrendo. Mas é curioso que muitas pessoas se recusam a lembrar de uma tragédia dessa magnitude na intenção de não sentir dor. Foi o que Santa Maria fez – a começar pela administração municipal da época, que fez tudo para abafar qualquer manifestação de dor e de indignação dos pais, familiares e amigos que ainda buscam por respostas (e Justiça) para o que aconteceu.

Eu fiz essa introdução porque, este ano, eu e minha comunidade estamos sendo continuamente convidados a lembrar do que passou. Quando completaram-se 4 anos da tragédia, especialistas vieram pra cá ensinar o quão importante era ter a memória de tudo, para que a gente pudesse sofrer/elaborar/superar/não repetir. Enfim.

Essa introdução um pouco longa faz parte de toda uma elaboração pessoal a respeito de memória, que tenho feito nos últimos dias. Na semana passada, durante a Feira do Livro de Santa Maria, a TV OVO realizou colóquios sobre jornalismo e narrativas audiovisuais. Profissionais gabaritados apresentaram trabalhos e experiências diferenciadas de reportagens e documentários que registravam histórias que não podem e não devem ser esquecidas.

E nessa mesma semana eu assisti dois documentários com narrativas muito diferentes (das que eu conheço, ao menos), sobre histórias que não se devem esquecer. Ambas estão disponíveis na Netflix.

Quem é JonBenet (Casting JonBetet, Kitty Green) – Foi um caso bem rumoroso. Em 26 de dezembro de 1996, a mini miss JonBenet Ramsey, 6 anos, foi encontrada morta no porão de sua própria casa. Ela fora esganada e havia sinais de violência sexual. A suspeita da polícia, por uma série de motivos, recaiu sobre os pais da menina, John e Patricia, e até sobre o irmão da guriazinha, um guri de 9 anos.

Passadas mais de duas décadas, ainda não se sabe, de fato, o que houve na noite pós-Natal. Nunca ninguém foi acusado do homicídio, e o mistério mantém no ar as lembranças. Lembranças que o documentário de Kitty Green traz à tona de um jeito interessante.

Com a desculpa de que um filme sobre o caso seria feito, a produção convoca um teste de elenco no mesmo condado onde JonBenet vivia. Os candidatos – vizinhos próximos ou distantes da família da vítima – entre uma cena e outra lembram do caso, falam do que sentiram, do que fariam se estivessem na pele dos Ramsey, que dores e ausências próprias os angustiam…  E todo esse conjunto de sensações nos ajuda a entender como a morte de uma criança afetou (e ainda afeta) a comunidade.

Roger-Guenveur-Smith

Rodney King (Rodney King, Spike Lee) – Em 1991, um taxista norte-americano chamado Rodney King foi parado em uma blitz por excesso de velocidade. Alterado, ele desacatou os policiais. Em resposta, tomou uma cruel surra dos homens da lei. Os 56 golpes (entre eles, um que fez um de seus olhos afundar no cérebro) foram gravados em vídeo, por um cinegrafista amador. As imagens correram o mundo.

Um ano depois, quatro dos policiais que agrediram King foram a julgamento. O júri, de maioria branca (de 13 pessoas, havia apenas um negro e um asiático), os absolveu das acusações. Foi o estopim para uma das maiores revoltas raciais dos Estados Unidos após as campanhas pelos direitos civis.

E 25 anos depois, a lembrança desse fato é trazida à tona por Spike Lee, no excepcional Rodney King,

Não sei se chega a ser um documentário, na perfeita acepção do termo. É um monólogo. O ator Roger Guenveur Smith (na foto cima) declama um poema de cerca de 50 minutos que narra a história de King, o contexto racial e de segurança da época, e todos os fatos  que se sucederam… É incrível.

O post está longo, eu sei, mas tem outros dois documentários que eu gostaria de comentar aqui, dentro do mesmo propósito.

holocaustobrasileiro

Holocausto Brasileiro (Daniela Arbex, Armando Mendz) – A jornalista Daniela Arbex levantou as atrocidades ocorridas em um hospital psiquiátrico no interior de Barbacena (MG), tornado um depósito de “lixo humano”. O saldo do crime: 60 mil mortos (!). O material virou uma série de reportagens, um livro e uma série da HBO. Dá para ver aqui, também.

Janeiro-27

Janeiro 27 (Janeiro 27, Luiz Alberto Cassol, Paulo Nascimento) – Depoimentos de familiares, sobreviventes e testemunhas da tragédia de Santa Maria. Veja o trailer aqui.

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Porque tem coisas que não dá pra esquecer…

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4 comentários Adicione o seu

  1. Andreia disse:

    Sim. A tragédia da Kiss foi algo que nos aconteceu e e acontece até hoje. Háoisas para não se esquecer… uma delas é ler esse blog. A leitura impactante, “perguntativa”, sensível, cativante é bem humorada me faz aguardar as próximas postagens com expectativa.

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  2. Andreia disse:

    Sim. A tragédia da Kiss foi algo que nos aconteceu e acontece até hoje. Há coisas para não se esquecer… uma delas é ler esse blog. A leitura impactante, “perguntativa”, sensível, cativante e bem humorada me faz aguardar as próximas postagens com expectativa.

    Curtido por 1 pessoa

  3. tatipy disse:

    Andreia, muito obrigada! Espero poder corresponder à essa expectativa!

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  4. CINARA disse:

    Muito boa reflexão. Já era tua fã, agora com esses textos cativantes mais ainda.
    Esses dias vi num filme que após uma tragédia as pessoas tentam sufocar a dor, trabalhando muito, ou tentando se distrair com outras coisas, ou simplesmente olhando pro lado. Mas a dor tá ali, ela não pode ser simplesmente sufocada, distraída, negada. Ela tem, como tu bem colocaste, que ser trabalhada, elaborada, sentida, sofrida, pq ela nunca vai deixar de fz parte de nós.

    Curtido por 1 pessoa

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