A menina que roubava frutas

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Sempre acreditei que, em criança,  fui o sonho de toda a mãe. Além de saudável e alegre, qualquer prato me apetecia.

E eu nunca refuguei uma fruta.

Até hoje, sou do tipo que acorda com desejo de abacaxis, almoça abacates, janta melancias e sonha carambolas… Cresci em um pátio rico de variedades: araçá, uva, goiaba, romã, laranja, caqui, ameixa e até cana-de-açúcar (não é fruta, mas não vem ao caso).

Mas era fora dos meus domínios de rainha da quitandinha que residiam os frutos proibidos. Literalmente. A amoreira e a pitangueira, que me fazem salivar em pecado até hoje, ficavam, com justeza poética, nos pátios à destra e à sinistra do meu reino.

Do alto de meus 4 ou 5 anos, eu já considerava injusto que árvores carregadas de felicidade passassem os dias ao sabor do vento derrubando frutos ao chão para serem comida de formigas e passarinhos. E eu?

Bem, eu roubava. Na foto acima, eu, nos meus tempos de meliante.

Como gostava mais de amoras, era ao terreno à esquerda de nossa casa de fundos, na Rua Nelson Paim Terra, em Canoas, que eu praticava boa parte dos meus crimes. Com os vizinhos trabalhando, me bastava saltar o jardim de espadas-de-são-jorge e uma cerca de arame farpado.

Apesar de ter-me retalhado várias vezes naquela divisa antipática, foi o roubo das pitangas, no pátio da direita, que me ensinou que o crime não compensa. Pular o muro em direção ao terreiro de dona Miriam era fácil. Bastava subir no velho tanque que ficava emborcado sob o pé de caqui.

Voltar, porém não era tão simples. Era preciso saltar e enfrentar um muro de chapisco, sem apoio nenhum. Cumprir essa jornada com as mãos cheias de frutinhas e em completo desespero era missão impossível.

Foi o que descobri, aos 6 anos.

Dona Miriam era uma respeitada yalorixá de Canoas e, em sua casa, havia dezenas de animais. Alguns domésticos, outros para consumo, outros para os sacrifícios rituais. Esses últimos (aves, em maioria), viviam presos.

Menos um.

O nome dele era Sapatá. Era um galo. Eu me lembro dele mais ou menos assim:

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Sapatá tinha olhos furiosos e, com justiça, substituiu os cães na missão de proteger a casa contra bandidos e meninas que roubavam frutas.

Para encurtar a história: nem tinha tido tempo para encher minhas mãozinhas das pitangas maravilhosas, quando um barulho peculiar chamou minha atenção.

Eu, que nunca tinha visto galo voando, comecei a chorar. Corri pro muro de chapisco, como um raio. Mas como subir nele com as mãos cheias de pitangas, Senhor???

Enquanto eu gritava por socorro, lanhava pernas, coxas e joelhos no cimento áspero que revestia o muro. Na retaguarda dos meus membros inferiores, trabalhava o incansável (e furioso) Sapatá. Bicou e arranhou o que pôde.

Eu berrava e, lá pelas cansadas, minha mãe ouviu. Veio correndo.

“Estou salva”, pensei!

Mas ela estava tão brava quanto o galo e era igualmente impiedosa (especialmente, quando ficava nervosa).

“O que aconteceeeeeeeeeeeeeeu?” – berrava a Maria Rita, enquanto julgava que as pitangas que espremia em minhas mãos fossem sangue.

Entendendo que eu estava pilhando o pomar da vizinha, ela começou a dar tapas na minha cabeça. Acho que Sapatá aprovou a medida.

O que aprendemos com esse episódio da minha vida, amiguinhos?

Vocês, talvez, nada. Eu aprendi que frutas são caras. E que é melhor eu pagar caro por elas do que pagar caro por mim.

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3 comentários Adicione o seu

  1. CINARA disse:

    Hahaha me divirto muitos com teus contos da vida real. Sempre foi sapeca mesmo.

    Curtido por 1 pessoa

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