A Vó

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Não sei muito sobre minha avó materna. Me parece que Lucília de Lima casou tarde.
E casou “mal”: alegretense, filha de escravos “forros”, preta de pai e mãe, escolheu um branco analfabeto, filho de um uruguaio (ou de um espanhol, porque, ao que me consta, o que daria no mesmo no início do século 20).

Sofreram o diabo! Casamento inter-racial era inadimissível!

Mensageiro da Viação Férrea, Albertino Py carregava malas (se pá, penicos cheios). Ouvia desaforos. Respondia: “Não, senhor!” e “Sim, senhora!”. Sempre humildemente.

Tá. Isso sou eu, romantizando; Meu avô pode bem ter virado um penico cheio em alguma cabeça. Eu adoraria!

Ele quis -me parece, pelo que ouvi e presumi – acabar com a vida boêmia a partir de um casamento.

Não sei como aquele filhote de espanhol se engraçou com minha vó, mas gosto de pensar que sou bonita como ela era.

Vou postar uma foto dela moça. Como era linda…

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O vô deve ter concordado comigo.

A distância era gigante e o trem, lento. Mas eles quiseram continuar.

As cartas eram escritas por amigos letrados, naquela caligrafia caprichada que precedeu à época das máquinas de escrever.

Vou postar uma. Cliquem na foto para ler a mensagem – como meu avô só aprendeu a ler e a escrever com a ajuda das filhas, foi escrita por outra pessoa…

Só depois do casório ela viu que morava com o capiroto!

E ele também.

*******

A infância de minha mãe e minhas tias foi cheia de amor. E de dor, também.

Naquela casa, todas as mulheres lavavam roupa. Lavadeira era a profissão da minha avó. Mas todas batiam panos nas pedras.

Não havia água encanada.
As roupas eram estendidas nos terrenos, nas ruas.

Minha mãe e minha tia eram escaladas para guardar a roupa que quarava ao sol, depois de grossas camadas de sabão.

Não havia fantasia, nem princesa linda na infância das pequenas. Elas apanhavam da vó.

Se alguma vaca solta pousasse a pata no pano alvo (naquela época, os bichos andavam soltos), elas apanhavam de novo.

Não quero que ninguém se sinta mal. Mas eu ouvi essas histórias e não quero esquecê-las.

Muitos sobrenomes ilustres dessa cidade sustentaram, mesmo que mal, a minha família de origem materna.

É uma das dores da minha família. Talvez, a sua tenha histórias semelhantes e, quando as contamos e recontamos, ficamos unidos num mesmo carma familiar e antigo.

O preconceito que beijou as mulheres da família de Lucília de Lima Py, ainda me beija quando penso que jogávamos anil no tecido.

Os patrões nos viravam a cara.

E a gente nunca esquece.

P.S.: A foto do casal, em uma festa junina no Clube União Familiar. Extraí do livro “Moreno Rei, dos Astros a Brilhar, Querida União Familiar”, de Franciele Oliveira.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Simone de Carvalho Ferreira disse:

    Kikinha,que lindo…amo teus textos!Me senti viajar com a história de tua família e fiquei com vontade de conhecer tua avó…Beijoos!!

    Curtido por 1 pessoa

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