“Eu perdi minha filha hoje”

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Andrielle era filha de Ligiane e de Flávio, e irmã de Gabrielle.

O texto a seguir é de autor desconhecido, mas reconheci cada frase, cada sentimento expressado por quem o escreveu, apesar de nunca ter criado um ser humano.

Porque quem postou esse texto foi a Ligiane Righi da Silva, esposa do Flávio, e mãe da Andrielle e da Gabrielle.

Andrielle morreu na Kiss.

Se você não mora em Santa Maria, vai se espantar, mas poucas semanas após a tragédia, os pais enlutados começaram a se tornar párias de nossa sociedade. Por quê? Por se recusarem a esquecer. Por exigirem respostas e punição aos culpados.

Na principal praça da cidade há um quiosque, que é chamado de Tenda da Vigília. Considero como um espaço de fortalecimento comunitário. As fotos dos que perdemos estão lá. E, semanalmente, e a cada dia 27, familiares (poucos, mas bons) ocupam o espaço, para que a tragédia não seja esquecida.

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A Tenda da Vigília: espaço de fortalecimento comunitário

É raro vermos lágrimas por lá. O mais comum são cenas de coragem e solidariedade (atualmente, um grupo de mães está confeccionando cobertores para crianças pobres).

Ainda assim, há na comunidade quem fale mal dos familiares.

“Mas por que não dão um jeito na vida?”, “A vida continua!”

Continua, sim. Mas por que, Deus, alguém pode querer determinar quando a saudade do outro chega ao fim?

E é por isso que compartilho com vocês esse texto, cujo autor não conheço, mas que abraço, em pensamento, assim como à minha querida Ligiane, a todos os familiares e amigos das vítimas da tragédia da boate Kiss e a todos os que viram seus rebentos partirem cedo demais:

Eu perdi minha filha hoje.

As pessoas vieram sofrer e chorar, e eu simplesmente sentei e encarei tudo. Estava atônita, sem acreditar naquilo que estava acontecendo.
Eles procuravam palavras para dizer, tentar e fazer minha dor ir embora.
Eu caminhava, sem acreditar…
Eu perdi minha filha hoje.

Eu perdi minha filha mês passado.
Algumas pessoas ligam, e algumas permanecem. Eu quero acordar disso, não pode ser real, quero gritar.
Tudo está ainda trancado aqui dentro. Deus me ajude, eu quero aceitar…
Eu perdi minha filha mês passado.

Eu perdi minha filha ano passado. Agora as pessoas que ainda vinham se foram. Eu sento e luto o dia todo para suportar a dor profunda aqui dentro de mim.
E agora me perguntam o porquê.
‘Por quê? Por que essa mãe não segue adiante? Simplesmente fica repetindo a mesma velha dor, o mesmo antigo lamento!
Eu perdi minha filha ano passado.

Eu perdi minha filha há dois anos.
Poderá fazer mais, não importa. O tempo não muda para mim.

O estado de incredulidade, de esperar que fosse tudo uma mentira da vida, essa ilusão que ainda tinha, infelizmente desapareceu. Meus olhos derramam, todos os dias (sim, todos!!) muitas lágrimas.
Eu percebo o jeito que você olha:
“Você deve seguir, não tem mais jeito.”

Que palavras duras para uma mãe: “Não tem mais jeito!”

Não doeria em você?

Sim, eu estou aqui, parada no tempo, e o meu sentimento é o mesmo:”Eu perdi o minha filha… hoje!”

Não importa quanto tempo… tá doendo, tá sangrando… Vai ser sempre assim… “COMO SE FOSSE HOJE”.

 

 

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