A Carol

ChadMichaels
Chad Michaels: uma das mais fechativas do RuPaul’s Drag Race. O cabelo dela me lembra o da querida Carol… 

Era uma casa de bom porte. Uma família com três filhos moraria ali, confortavelmente. No entanto, uma única pessoa vivia no lugar: a Carol.

Não que o endereço não fosse movimentado.

Era um dos poucos salões de beleza do conjunto habitacional recém construído e, além disso, a fama da proprietária corria pelo bairro. E isso por 3 motivos.

  1. Carol fazia de permanente à pedicure com extraordinária perfeição
  2. A casa era fina. Depois de visitá-la, a maioria das senhoras adquiria uma bombonière de vidro para imitar a peça de cristal que adornava uma das mesas do salão
  3. Carol nascera homem

Não percebi. Afinal, eu só tinha 6 anos. Hoje, lembro dela como uma senhora corpulenta de cabelos dourados e ondulados, na altura dos ombros. Tipo uma Marilyn sem drogas, mas com 3 filhos e um divórcio.

Na minha lembrança, ela veste um káftan preto e dourado que combina com a maquiagem um pouco pesada nos olhos. Usava um perfume suave, que não se misturava ao laquê e à acetona.

Era gostoso o perfume da Carol.

Lembro também da casa dela, decorada com todo o esmero possível, e cheia das “novidades”. Tipo aquele porta-retratos em forma de árvore para fotos 3×4 do catálogo da Avon – quem lembrar, por favor, dá um like clicando no “olho” (1 pessoa lembrou. êêêê).

Lembro ainda da bomboniére de cristal. Como era linda! E estava sempre cheia (finesse, né?).

Na primeira vez que a mãe e eu fomos lá, a Carol, delicadamente, me ofereceu um bombom. Eu, que já sabia em qual terreno pisava, olhei pra mãe. Recebi, em retribuição um olhar que mandava uma mensagem do tipo: “Tu-quer-comer-de-novo?-Se-tu-aceitar-vamos-conversar-em-casa”.

Medo.

Olhei pra Carol e disse: “Não”.

E a mãe: “Não, obrigada”.

Eu: “Não, obrigada”.

A Carol, percebendo a situação, tirou dois sonhos de valsa da bombonière e colocou na minha mão:

– Tu é muito educadinha. Leva para comer em casa, se quiser.

A Carol foi a primeira pessoa gay/trans que lembro de ter conhecido. SNão esqueço da mãe confundindo pronomes para se referir a ela. Não a culpo. Ainda hoje me policio para não errar.

Queria ter conhecido melhor a Carol. Queria ser amiga dela hoje.

Mas o salão bonito da Rua Tiradentes, no Jardim Porto Alegre, não durou um ano. A Alvorada (RS) do início dos anos 80 podia não ser tão perigosa quanto a de hoje, mas era igualmente impiedosa.

Carol fugiu da intolerância. Mas nunca será esquecida.

Nesses dias de Orgulho Gay, me lembro da minha primeira heroína purpurinada.

A elegante, cheirosa, gentil e belíssima: Carol!

#Orgulho #Pride #BrasilSemHomofobia

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