“Me chamaram de negra”

20258265_1397125033713998_5286630437964690266_nMesmo que eu não me reconhecesse como diferente, desde que eu era muito criança, sempre tive alguém por perto pronto para destacar que eu não era igual. E tinha maldade embutida no comentário.

“Tu nasceu no esgoto.”
“Tu não pode tomar café, senão tu fica mais preta.”
“Se tu se esfregar bem no banho, esse encardido sai.”

Eu me sentia muito mal , mesmo sem entender o porquê. Eu certamente não tinha nascido no esgoto, porque alguém diria uma coisa daquelas?
O cabelo era (ainda é) um ponto sensível. Mas minha mãe o penteava.
O que havia de errado comigo?

Até que, lá pelos meus 8 anos, alguém me fez entender algo que eu não percebia:
– Tu é negra. Olha a minha cor e olha a tua. Olha o teu cabelo. É pixaim. O meu é liso.

Não havia maldade no comentário. Mas uma verdade que eu não tinha percebido.

Entrei numa tristeza severa. Eu, que sempre admirara a beleza dos olhos da Maitê Proença e os cabelos da Wanderléa, entendia que nunca pareceria com elas. E estética que eu desejava era impossível. Quem da minha cor seria tão linda quanto a Maitê?

E ainda havia aquelas musiquinhas infames:
“Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”
“Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear…”

Demorei muitos anos para reconhecer a beleza e a grandeza da minha ancestralidade, tanto nos sentidos estéticos quanto intelectuais e históricos. Ainda não dei todos os passos na minha aceitação étnica (meu cabelo merece um texto à parte), mas me felicito ao perceber que, cada vez menos crianças passam pelo que passei.

A representatividade negra é gigantesca hoje, ainda que não suficiente. E mesmo que o preconceito seja proporcionalmente gigante, nosso orgulho e força também se elevou.

E a despeito que muitos queiram interpretar nossa luta por igualdade de direitos e condições como vitimismo, conseguimos construir uma sólida certeza: a de que a luta e o sofrimento de milhares irmãos e irmãs não foram em vão. Somos iguais. Só precisamos das mesmas oportunidades.

Tenho orgulho de ser o que sou. Uma mulher negra.
Sim!Sou!

Avanço, segura.

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