O pai

 

Tenho poucas fotos com meu pai. Quase nenhuma, na verdade.
O fato de eu ter vivido a maior parte da vida sem ele tem muito a ver com isso.

Eu tinha 10 anos quando ele foi tirado de nós. Então, eu tenho uma visão bastante infantil sobre quem era o “Seu Paulinho” (ainda que eu, ainda criança, tivesse a capacidade de reconhecer seus defeitos; e, adulta, saber o quão difícil era conviver com suas fraquezas).

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Curiosamente, eu tenho muita dificuldade de contá-las (escrevi e apaguei 3 vezes).
Eu me constranjo por ele.

Mas ele foi um bom pai.

Ele era amoroso, divertido e criativo, gostava de cantar (e de fazer paródias de músicas famosas, nas quais ele adicionava o meu nome e o da minha irmã), de dançar e de brincar.
Eu subia nos pés dele para dar uma volta no pátio, e ele cantava: “Pé com pé, só não vale pé chulé”. Até eu cansar.

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Lembro dele deitado no sofá, descascando bergamotas e fazendo planos para quando ganhássemos na loteria.

Ele sempre queria que eu assistisse westerns e filmes de shaolin que passavam tarde da noite. Se eu estivesse com sono, ele dizia: “Vai lavar o rosto, tu vai adorar o que vai acontecer!” Não gosto desses gêneros até hoje (a menos que Tarantino dirija).

Eu era uma criança que adoecia com frequência, e meus dentes ficaram manchados pelos antibióticos. Na falta de algo melhor, o pai passava “bombril” pra limpar. Não funcionava, mas a intenção…

Ele foi a primeira pessoa que disse que eu precisava emagrecer.
Fiquei magoadíssima!

Ele dizia que se eu começasse a namorar, os taxistas da frente da escola iam contar pra ele, e eu que o guri íamos “levar uma tunda de cinta, no meio do mato pra ninguém ouvir os gritos”. Eu ficava apavorada, apesar de não ter pensado em namoro ainda!

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Nossa última foto, em Capão Novo, 1986

Daí, em abril de 1986, ele morreu.

Morreu sem ver a Copa, para a qual tinha comprado nossa primeira TV a cores.

E eu, até hoje, quero um desfecho diferente para essa história.

Feliz Dia dos Pais, seu Paulinho!
Na foto abaixo, são as mãos dele me segurando na cadeira, para eu não cair.
Eu imagino o pai assim, invisível, mas sempre por perto.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Oi Tati ele concerteza está lá no céu olhando e torcendo pra você

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    1. tatipy disse:

      Obrigada pelo carinho, querido! Que assim seja! ❤

      Curtido por 1 pessoa

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