Sai, Estado Laico!

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Uma irônica coincidência entre a vida real e as manchetes do dia: há pouco, na reunião de condomínio, a síndica apresentou a proposta de um morador de colocar uma imagem de Nossa Senhora em um espaço ocioso da área comum. O vizinho se ofereceu para pagar a gruta e a santa.

  • Quem paga a obra? – perguntou uma vizinha
  • Posso colocar uma casinha vermelha pro Bará no lado? – perguntei eu, possuída pelo espírito de porco e pela habitual simpatia.

Se havia algum vizinho evangélico na reunião de condomínio, perdeu a chance de abominar as duas propostas. Eu adoraria que tivesse surgido algum, gritando de indignação sobre algum versículo sobre falsos deuses etc, porque caberia.

A assembleia, por fim, achou por bem não permitir essa manifestação de fé, por ser muito pessoal e por abrir precedentes. O condomínio poderia ter de acatar outras denominações religiosas menos hegemônicas que o catolicismo por exemplo.

Porém, hoje, o STF decidiu que as escolas públicas podem oferecer ensino religioso de uma ou mais religiões específicas. 

Até então, a regra previa que houvesse “exposição das doutrinas, das práticas, da história e de dimensões sociais das diferentes religiões – bem como de posições não-religiosas, como o ateísmo e o agnosticismo, sem qualquer tomada de partido por parte dos educadores”. As aulas também não poderiam ser ministradas por professores que atuassem como representantes de confissões religiosas.

Eu nunca tive uma aula como essa, mas vou admitir que ela aconteceu, para… hum… quantas crianças?

600-bancada-evangelica-homofobia
Carlos Latuff

Não aconteceu. Pelo menos não do jeito previsto pela Procuradoria-Geral da República. E com a decisão ao STF, o que era raro, agora será fantasia. E tá autorizado.

“Mas, Tati, qual o problema de fazer o sinal da cruz, rezar o Pai Nosso, ler as Escrituras, orientar as crianzzz… palvr… moralidade… gays… Jezzz.”

Porque eu defendo o Estado Laico. E porque esse efeito pacificador da religião não vem da sala de aula, mas de casa. Vem dos pais, dos avós, dos tios, dos amigos dos pais, dos da criança, da comunidade, do ambiente instrutivo e carinhoso ao redor.

Laico não quer dizer “contra a religião”, mas afastado.

Eu posso escolher se ponho uma gruta de santa, uma casinha vermelha, uma estrela de Davi ou uma imagem de buda na minha porta.

O governo não pode me proibir de manifestar ou professar minha crença.

Meu vizinho não pode me proibir que eu manifeste ou professe minha crença.

Da mesma forma, não quero que um professor, seja da religião que for (ou mesmo ateu), envolva meu filho em qualquer outra teia de pensamento gnóstico que não seja o que prefiro; ou ainda a qualquer interpretação errônea de texto sagrado ou informação agnóstica.

Também exijo, que nenhum legislador ou jurista envolva suas crenças pessoais para planejar, desenvolver e executar leis tendo suas crenças religiosas como balizadoras morais, legais ou de qualquer natureza.

Ainda exijo que os locais públicos que frequento respeitem os posicionamentos religiosos de todos da forma mais simples possível: não favorecendo (nem desfavorecendo) nenhum.

Como garantiremos isso?

ESTADO LAICO, BEBÊ!

Defenda-o, você também.

sai-estado-laico
Carlos Latuff

 

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