Tem coisas que é melhor não saber…

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Acho que assisti a todas a reportagens sobre a morte dos Mamonas Assassinas, do Airton Senna e do atentado às Torres Gêmeas. As cenas do flagelo na Síria, tanto em fotos como em vídeos, me deixaram num estado de “engasgo” prolongado. Parecia que eu ia acabar vomitando meu coração, meu estômago, meu fígado.

Ser jornalista me obriga a estar bem informada. E essa sensação de “dever” me fez ver e saber de muita coisa. Coisa demais. Creio ter consumido uma quantidade exagerada de dramas humanos em tempo muito curto.

Isso me deixou bem informada. E arrasada. E descrente. E cínica.

“No meu país, Santa Maria”, há quase cinco anos (27 de janeiro de 2013), ocorreu uma tragédia absurda: 242 pessoas morreram no incêndio a uma boate cuja segurança já havia sido questionada anos antes.

Mas nada foi feito. A boate Kiss era uma armadilha mortal.

Eu trabalhei na cobertura daquela “guerra”. E aquela dor mudou algo em mim. Guardo, ainda, jornais daqueles dias. Aquelas histórias, as notícias, os detalhes, os depoimentos.

A maioria, não li.

Eu escolhi assim.

Meu coração ia partir, rachar, explodir. Eu não podia ler tudo aquilo.
Isso porque, por dever profissional e cívico (testemunhas de barbárie têm a obrigação de contar ao mundo sobre a desgraça que os abatem), eu falei pessoalmente com sobreviventes, com seus familiares, com parentes de vítimas, com vizinhos e amigos, com profissionais que ajudaram no socorro…

Eu vivi aquelas notícias.

Eu estou vendo a injustiça se materializando dia após dia. E lutar contra ela, me parece, é a luta mais importante.

E, depois da desgraça do povo Sírio (noticiada dia após dia como uma banalidade), passei a me esquivar de certas notícias.

Resolvi contar isso porque hoje, mais cedo, indo para a dentista, ouvi no rádio sobre a morte de duas crianças em um suposto ritual de magia negra, aqui no RS, ano passado. Eu dirigia e, a cada detalhe fornecido no inquérito recém concluído, eu me estarrecia mais. Ao ponto de a ideia de uma broca entrando no meu dente, sem anestesia, soar como uma massagem.

Será que desacostumei com o “mundo cão”?

Nem sobre aquela tragédia horrorosa na creche mineira sei mais do que o necessário.

Sei o mínimo.

Não vi as mães e os pais chorando em desespero, não vi os caixões, não sei a ordem dos fatos nem os nomes dos mortos.

Aquilo que imagino já é doloroso demais.

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