Um Oscar para uma mãe. Ou duas

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Margot Robbie e Allyson Janney, em “I Tonya”

Eu ainda não consegui ver todos os filmes que concorrem ao Oscar – que será entregue no próximo domingo, 4, em Los Angeles.

Ainda que eu não tenha muita certeza sobre os vencedores, tenho quatro favoritas aos prêmios de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.

TODAS interpretam mães!

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Sam Rockewell e Frances McDormand em “Três anúncios para um crime”

Frances McDormand, Melhor Atriz por
Três Anúncios para um Crime”

Já contei aqui no blog, que moro em Santa Maria (RS), onde, há 5 anos, 242 pereceram após um incêndio que só aconteceu porque a ganância, a imprudência e a negligência tiveram um encontro mortal. E ainda impune.

Por isso, pra mim, foi impossível não pensar nos pais e familiares das vítimas da Kiss nesse filme, em que Frances McDormand interpreta uma mãe em busca de justiça.

E ela tem gana por justiça! Ela a exige, com as unhas, com gritos, com cuspe, com chutes. Toda a revolta por saber que a filha foi torturada e, à beira da morte, estuprada por seus algozes.

O fim trágico da filha motiva a mãe a comprar três outdoors, em uma estrada pouco usada de uma cidade do sul dos EUA, para denunciar a ausência de responsáveis, quase um ano depois. No último outdoor, ela pergunta ao xerife: “Como assim?”

O pedido de explicações divide a cidadezinha, já naturalmente preconceituosa. Especialmente o ato da mãe é considerado incivilizado: o afável e confiável chefe de polícia, que sofre de câncer terminal (Woody Harrelsson).

E ela sofre diversas retaliações e perseguições, inclusive de um policial racista e limítrofe (Sam Rockweel, que deve levar o Oscar de ator coadjuvante).

O filme traz Frances em intermitentes momentos de raiva contida. Daquelas que tu segura nos dentes, no franzir do cenho, nas mãos crispadas. Mas que, mais cedo ou mais tarde vira choro, vira berro, vira bofetada.

Eu vi tudo o que aconteceu aqui, na nossa tragédia real e coletiva. Mas acho que só consegui me identificar com a raiva e o desespero por justiçaao ver uma obra de ficção.

Espero, honestamente, que Frances leve esse Oscar.

***

Allison Janney, Melhor Atriz
Coadjuvante por “I Tonya”

Que mulher ruim, meu Deus.

Allison Janey interpreta, em I Tonya, a mãe de Tonya Harding (Margot Robbie), uma atleta que chamou mais a atenção por sua vida conturbada do que pelo talento (gigantesco) na patinação do gelo.

No filme, que mescla mockumentary (documentários que tiram sarro da história), dramatizações e imagens reais da patinadora e de toda a fauna que a circundava no pior momento de sua vida: ela e o marido foram acusados de planejar um atentado contra uma de suas rivais no rinque.

Vale ver o filme. A gente se desespera com o nível de estupidez dos envolvidos. Ah, e com o NOJO da mãe de Tonya – personagem pelo qual Alison Janey pode levar seu primeiro Oscar.

E seria merecido.

LaVona percebeu que a filha tinha talento para patinar no gelo e, pelo que vemos no filme, esse foi o único acerto da mãe com a herdeira. Abusiva, tóxica, negligente, violenta. A cada escolha (péssimas, na maioria) da Tonya, a gente vê as garras da mãe e o abandono do pai.

Resta saber se Tonya sabia ou não o que ia acontecer com Nancy Karrigan.

***

Laurie Metcalf, Melhor Atriz
Coadjuvante por “Lady Bird”

Assisti na minha primeira sessão de cinema no Canadá, e fiquei vários minutos chorando após a exibição. Só levantei e saí porque achei que poderia ser expulsa. Se pá, estava lá, chorando, até hoje.

Lady Bird não é lá um filmão. Tudo é bem comum na vida de todo adolescente, sua família, amigos e circundantes. Mas tem tanta verdade nesse modo ordinário de ver a vida…

Mas é difícil não rolar uma identificação. Pra mim, foi brutal.

Christine é uma menina de 17 anos, que se acha especial demais para a cidade que mora, para a escola onde estuda e, até, para a família em que nasceu (e que não compreende seus propóstitos).

O que ela faz? Ela tenta fazer de uma perspectiva, uma certeza: ela fala age e fala como se fosse um jovem prodígio. E não vê as armadilhas que a arrogância monta dois passos além.

A mãe dela, interpretada por Laurie Metcalf, sim, vê cada arapuca.

E ela parece não querer fazer nada além de notá-las. Muitas vezes, está certa. Mas a insistência e o mau jeito em alertar a filha sobre a “vida real” abre um abismo entre elas.

Lady Bird se sente agredida por cada observação materna, e vai fazendo escolhas equivocadas por decidir confiar mais em ua inexperiência do que na experiência explosivamente pessimista da pessoa que, de forma errada, tenta lhe proteger.

Assistam.

***

Mary J. Blidge, Melhor Atriz
Coadjuvante por “Mudbound”.

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Mary J. Blidge, e Jason Mitchell, em “Mudbound”.

A postura permanentemente amorosa de Florence – uma mãe negra da zona rural de uma cidade do Mississipi, na década de 40 – é um alento para os quatro filhos. É o que permite à prole sonhar com um futuro longe da fazenda lamacenta, das agruras das plantações de algodão e do racismo.

Florence não distribui amor somente aos filhos, mas também ao marido e a família do arrendatário da propriedade, o tolo e bronco Henry MacAllen, também não tão feliz com a vida por ali.

Curiosamente, é uma amizade que acaba por inviabilizar qualquer laço de simpatia entre as famílias. Ao voltarem da 2a. Guerra Mundial, Resel, filho de Florence, e Jamie, irmão de Henry, se tornam grandes parceiros.

Extremamente intolerante,o pai idoso de Henry, Poppy McAllaen, oferece, ao longo do filme, uma série de indícios de que uma tragédia se avizinha. E o amor de Florence é posto à prova.

A atuação de Mary J. Blidge é contida. A postura física é sempre ereta e digna, o que disfarça o orgulho que precisa engolir frequentemente. Esse sentimento, assim como a raiva e a aflição, a atriz/cantora deixa transbordar pelos olhos.

Os únicos sentimentos que ela deixa escancarar são o amor. E o desespero.

Vocês assistiram a esses filmes? O que acharam?
Amanhã volto para falar de “Mudbound”.

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