Lembrei porquê parei de ouvir música…

A terapia faz a gente vasculhar uns arquivos empoeirados da memória, então preciso corrigir algo que contei aqui.

Quando escrevi sobre os motivos de quase não haver música na minha vida, culpei a internet, a Netflix etc. Mas isso é uma verdade parcial.
Tirei e coloquei a música da minha vida algumas vezes.

Geralmente, eu estava em luto.

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Eu, a mãe, três dos quatro ‘originals’ Golden Boys, e o disco autografado que o pai sempre guardou, na foto que o Darlan Scheflben fez em 2015 ❤

Quando meu pai morreu, sua coleção de discos da Jovem Guarda me fez companhia. Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Roberto e Erasmo eram muito populares na juventude dele. A elite da música, nos Anos de Chumbo, os chamava de “alienados”.

Talvez com certa inveja. Sem esforço em politizar, eles eram “O” HYPE.
Eu e todos os fãs sabemos o quanto esses discos valem até hoje.

E, pra mim, as obras evocam lembranças amorosas do velho.
É como acordar nas manhãs de sábado, tomar Nescau quentinho e ver desenho na TV, sabe?

Você é meu amorzinho, você é meu amorzão
Você é o tijolinho que faltava na minha construção…

Quando a dinda Zaida morreu, meses depois do pai, meu encontro foi com o batuque. E com Clara Nunes.

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

Anos atrás, aconteceu de eu me apaixonar. E todas as músicas que eu ouvia me lembravam do cara que eu gostava. Foi nessa época que passei a curtir o Tavito.

Sem querer fui me lembrar
De uma rua e seus ramalhetes,
O amor anotado em bilhetes,
Daquelas tardes.

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Integrante do Clube da Esquina, Tavito é autor de músicas como “Rua Ramalhete” e a célebre “Casa no Campo”. Morreu cedo, aos 71, em fevereiro de 2019.

O tempo passou e aquele amor morreu.
Eu entrei em luto, novamente.

E fiz algo que, não tinha notado, mas havia feito antes: cancelei a trilha sonora do romance.

Como as trilhas eram amplas… Melhor não ouvir nada, né?
Né?

Sobrou até pra Jovem Guarda.

Rasgue as minhas cartas 
E não me procure mais 
Assim será melhor meu bem 
O retrato que eu te dei 
Se ainda tens não sei 
Mas se tiver devolva-me

Algumas músicas, não ouço há anos. Elas me levam à um passado de separação, de solidão, de fracasso.

Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza

E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta, moço
Sem ter visto a vida

Reconheço. Cancelei certas partes da minha vida.
É bem louco.

Então, foi assim que deixei a música fugir. Em certos períodos, foi mais proveitoso o contato com outras mídias divertidas que o elo com sensações poéticas abstratas.

Você marcou em minha vida,
Viveu, morreu na minha história.
Chego a ter medo do futuro e da solidão,
que em minha porta bate

A questão é que, no passado, eu me apaixonava uma vez a cada estação.
Hoje, eu levo anos para me abrir a uma possibilidade amorosa.
Com a porta fechada, amor e música ficam do lado de fora.
Mas não me sinto confortável com isso…

Ser amor (pra quem anseia)
Solidão (de casa cheia)
Dar a voz (que incendeia)
Ter um bom motivo para acreditar
Mais bonito não há
Pode acreditar
Mais bonito não há

Ouso dizer que estou disposta a uma nova aventura amorosa.
Quem sabe o prazo da urucubaca já expirou?
Como diz minha amiga Rita, “Kkkkk. Oremos!”

Pelo sim, pelo não, e seja qual for o resultado da minha empreitada, pretendo dedicar ao meu coração – ferido ou feliz – músicas.
Muitas músicas.

Quando eu soltar a minha voz por favor entenda
Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca, peito aberto, vou sangrando
Sã o as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando
Quando eu abir minha garganta essa força tanta
Tudo que você ouvir, esteja certa que estarei vivendo
Veja o brilho nos meus olhos e o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado, transbordando toda raça e emoção
E se eu chorar e o sol molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é minha força pra cantar
Quando eu soltar a minha voz por favor entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar

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