Tem fases que são fezes

Na mesma semana em que a psicóloga não pode me atender, deu uma treta horrorosa nas minhas costas. “Escoliose, estiramento lombar e Emily Rose”.

Foi o diagnóstico que inventei.
Foi coisa medonha. Me assustei.

Em certos momentos nesta semana, duvidei se poderia viver sozinha. Duvidei poder viver com ajuda. Duvidei poder respirar de-va-gaaar.

Movimento lento e pânico interno.
O que eu fiz pra merecer esse monte de mer**?

Como trabalhar assim? Como viver?

Veio o texto “Não era nada, não”, com autoria atribuída a Eduardo Galduróz, que descreve a perfídia imposta aos familiares de cinco vítimas, inocentes, da PM do Rio.

Uma das primeiras frases é um tiro no leitor, desferido pelo avô de uma das vítimas, garoto de 16 anos, promessa do futebol:

“Carreguei quando nasceu e agora, quando morreu”.

O menino levou um tiro nas costas. Como não chorar?

Um dos policiais, ao abrir a mochila do garoto e perceber “o engano”, teria dito: “Ô, ele não era nada não, não era nada não”.

“Margareth também não era nada não. Caminhava, subversiva porque livre, com material da mais alta periculosidade ao colo: seu filho de um ano e 10 meses.”

Foi abatida com 10 tiros.

Deus protegeu o bebê da selvageria.

Protegeu?

Leia o texto, maravilhoso e triste, na íntegra (catei no Quebrando o Tabu):

NÃO ERA NADA NÃO

O avô sai do IML, camisa branca encruada pelo sangue do neto: “carreguei quando nasceu e agora, quando morreu”.

Dezesseis anos.

Na mochila, chuteiras e uniforme: o menino saía de casa pra ir ao treino de futebol, a trajetória interrompida pela bala nas costas.

Um dos policiais, ao abrir a mochila e perceber o ~engano~, teria dito: “ô, ele não era nada não, não era nada não”.

Margareth também não era nada não. Caminhava, subversiva porque livre, com material da mais alta periculosidade ao colo: seu filho de um ano e 10 meses.

Foi abatida com 10 tiros. Conseguiu, sabe-se lá como, proteger a criança: apenas tiros de raspão.

O menino vai crescer, criado pelos avós, pra ser também um nada não.

Como outros pretos naquela comunidade, e outros quase pretos de tão pobres, que não terão direito sequer a seus afetos, sequer a seus sonhos.

Não são nada não.

A Zona Sul, dizem, está mais segura, olha que pôr-do-sol lindo no Arpoador.

Texto: Eduardo Galduróz
Via Pessoal dos Direitos Humanos

#MarielleVive

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